sábado, 30 de maio de 2026

O surgimento da Sociolinguística e sua importância para os estudos da língua - Por Renan Freire


Operários-Tarsila do Amaral

O conceito de Variação surge na década de 60 a partir dos estudos do teórico norte-americano, William Labov (1972). Porém, antes de explorar a fundo o que é Variação Linguística (doravante V.L), nota-se imprescindível uma breve discussão sobre duas correntes que foram fundamentais para os avanços e ampliação nos estudos da linguagem: estruturalismo e gerativismo, bem como o surgimento da Sociolinguística. 


Encaminhamento Estruturalista

Ferdinand de Sausurre

No início do século XX, o teórico da Universidade de Genebra, Ferdinand de Saussure (1916), considerado o fundador da linguística moderna, definiu a língua (langue) como objeto de estudo da nova ciência, além de considerá-la como “um sistema de signos, estrutura autônoma”, desvinculada de fatores externos e uma parte essencial da linguagem. Para Saussure (1916), a linguagem “é heteróclita, isto é, fora de padrões, e multifacetada, já que exige diversos domínios”. Nesse sentido, observada a complexidade do conceito de linguagem, o genebrino limita-se ao estudo das entidades concretas, ou seja, os signos linguísticos, e a concretização destes, isto é, a fala. Saussure apresenta a fala (parole) como uma subparte da língua. A definição dada pelo autor traz a fala como processo concreto da língua e um ato individual do falante. Embora o estruturalismo considere a língua como faculdade social da linguagem, por outro lado, as variações foram ignoradas, e os estruturalistas observaram e descreveram a fala somente pelos aspectos fonológicos.


O conceito de língua sob a ótica do Gerativismo

Noam Chomsky

Outrossim, em 1957, o teórico estadunidense Noam Chomsky publica o livro Syntatic Strucytures, sendo responsável pela fundação da corrente denominada Gerativismo, que aborda um novo conceito de língua. Para Chomsky (1957) a língua é um sistema ‘abstrato de normas’ e homogêneo, um fio condutor que possibilita ao ser humano exprimir seus pensamentos. Já a linguagem é trata como “o conjunto de sentenças finitas em comprimento e constituída por elementos finitos”. Vale salientar que da mesma maneira como Saussure separou a língua de fala, Chomsky desenvolveu novas concepções em contraste aos estruturalistas. A Competência Linguística está relacionada à capacidade do falante produzir uma quantidade infinita de frases de acordo com uma gramática interna, mesmo sem nunca as ter ouvido antes, compreender e reconhecer as estruturas de sua língua. Já o Desempenho Linguístico, definido por Chomsky, trata-se de um conjunto de imposições que limitam o falante a usar a língua em sua forma mais complexa, é o uso real da língua. Chomsky (1957) privilegiou apenas os estudos sobre a competência e não aprofundou nas questões que envolviam o desempenho. Isso rendeu diversas críticas ao gerativismo, bem como ao autor.

Observa-se, então, que as duas grandes correntes Linguísticas não tinham preocupação quanto às relações entre língua e sociedade. Todavia, não se pode desconsiderar a importância dessas teorias, seria de fato um retrocesso, pois os autores supracitados solidificaram os estudos linguísticos, porém como toda teoria, não é possível oferecer respostas para absolutamente tudo, outros estudiosos com bases nas suas referências propõem novas ideias. E assim ocorreu com os estudos da língua, se no passado os estudos sobre a variação foram deixados de lado, na década de 60, diversos teóricos estavam preocupados em compreender a língua na sociedade.


O nascimento da Sociolinguística

William Labov


No ano de 1966, nos Estados Unidos, o simpósio chamado ‘Direções para a Linguística Histórica’ proposto por Uriel Weinreich, William Labov e Marvin Herzog resgatou as discussões sobre os estudos da mudança linguística, além das motivações sociais que levavam aos falares distintos, considerando aplicadamente teorias apresentadas pelos neogramáticos, estruturalistas e gerativistas sobre o tema (Coelho, Görsk 2023). É partir dos estudos do teórico norte-americano William Labov (1972), em 1961-1964, na Ilha de Martha’s Vineyard, em Massachussets que a Sociolinguística dá o ponta pé inicial como modelo teórico-metodológico. Mas o que é sociolinguística? Segundo Mollica (2007, p.7), “é uma subárea da linguística e estuda a língua em uso no seio das comunidades de fala.” Labov (1972) foi pioneiro na abordagem investigativa sobre os contextos sociais e seus impactos na língua, responsável pela elaboração do campo de estudo conhecido como Sociolinguística Variacionista. O método também denominado Sociologia Quantitativa buscar analisar dados de fala por meio de entrevistas e momentos espontâneos de fala, sendo o entrevistado chamado de informante. Segundo ele, a língua como é falada, também escrita, difere entre os indivíduos, graças as diversas pressões sociais que propiciam mudança.


No livro Padrões Sociolinguísticos, Labov (1972) discute o trabalho realizado na ilha de Martha’s Vineyard, onde na época da pesquisa contava com uma população de 6 mil habitantes, era 57ª ilha dos Estados Unidos com cerca de 33 km de comprimento. Com uma população de diferentes etnias; descentes de portugueses – que era a maior concentração de Massachussets, indígenas, miscigenação de ingleses, franco canadenses, irlandeses, alemães etc. A diferença que Labov trazia de outros teóricos era a análise quantitativa dos dados, que para ele era fundamental que durante a coleta o falante conversasse de maneira espontânea “Se quisermos fazer bom uso das declarações dos falantes sobre a língua, temos que interpretá-las à luz de produções inconscientes, sem reflexão” (Labov,1972). 

Desse modo, o desafio de Labov era entender o que levava uma parte dos falantes da ilha adotar uma postura mais conservadora por meio da utilização do inglês americano e apresentar aspectos da fala que chamavam a atenção, especialmente os ditongos centralizados /ay/ e /aw/, frequentes em palavras como: right, cow, out. O interesse do autor nesse estudo foi trazer essa visão geral do papel da interação social na mudança linguística. Finalmente, discorre-se a seguir sobre a definição dada à V.L. Segundo Bagno (2003), a língua para os sociolinguistas é heterogênea, está sempre em processo de desconstrução e reconstrução. Isso significa que o Português Brasileiro falado atualmente não é o mesmo de 1800. Ninguém fala com o patrão do mesmo modo que fala com o amigo ou pais. São contextos diferentes e exigem um falar específico. Essa diversidade linguística muitas vezes é tratada com desdém, carregada de preconceito e exclusão. Bagno (2003) afirma que “a tradição da escrita literária de muitos séculos e até mesmo um modelo educacional sistematizado levou as pessoas a terem o costume de ter uma ideia de língua a partir dessas instituições”. Todavia, é necessário descontruir esse pensamento, pois a língua é um fato social que espelha a pluralidade e particularidades do povo que a fala:

As diferentes formas que empregamos ao falar e ao escrever dizem, decerto modo, quem somos: dão pistas a quem nos ouve ou lê sobre o localde onde viemos, o quanto estamos inseridos na cultura letrada dominantede nossa sociedade, quando nascemos, com que grupo nos identificamos,entre várias outras informações (Coelho et al. p.17).

Neste ponto da discussão, chegamos ao elemento que caracteriza a língua como diversa, isto é, a variação linguística. Conforme indica Monteiro (2008, p. 57), é uma premissa basilar o fato de que “a variação é essencial à própria natureza da linguagem humana.” Isso quer dizer que em qualquer que seja a manifestação linguística: falada ou escrita e independente do ambiente onde ocorra existe variação linguística. Nesse sentido, a variação linguística é, portanto, um processo no qual duas formas de falar ocorrem num mesmo contexto e com significado igual e o mesmo valor de verdade (Coan e Freitag, 2010; Rebouças e Costa, 2014; Coelho et al. 2023).


Isso é ocasionado por inúmeras forças que atuam sobre a língua, a qual Labov (2008), denominou de condicionadores (Conditioners). Um dos princípios da Sociolinguística é que a variação não está num domínio do caos, pois ela ela pode ser descrita e analisada a partir da metodologia da teoria. Nesse cenário, Coelho et al (2023), que a variação não é algo aleatório, muito menos um ‘erro’, e sim, uma conjuntura de regras que regem a língua, tendo em vista que nada na língua é por acaso, como defende Bagno (2003, p. 38). Já para Mollica (2007), a variação linguística é um fenômeno universal composto por formas linguísticas alternativas, ou seja, as variantes. Em vista disso, é pertinente atentar para o fato de que

“Variantes linguísticas” são, portanto, diversas maneiras de se dizer a mesma coisa em um mesmo contexto, e com o mesmo valor de verdade. A um conjunto de variantes dá-se o nome de variável linguística. [...]. Em geral as variantes podem ser padrão ou não padrão, conservadoras ou inovadoras, estigmatizadas ou de prestígio, sendo que, em geral, a variante considerada padrão é, ao mesmo tempo, conservadora e aquela que goza do prestígio na comunidade. As variantes inovadoras, por outro lado, são quase sempre não padrão e estigmatizadas pelos membros da comunidade (Tarallo, 2005. p. 12).

A visão negativa diante de novos falares é tida como preconceito linguístico, e por vezes, é representado pela mídia de forma estereotipada e caricata. O que se pode concluir é que os estudos desenvolvidos pela Sociolinguística permitem uma reflexão acerca do dinamismo inerente que acontecem na língua e sua relação íntima com o corpo social, e observar de maneira palpável as variáveis que são intrínsecas a todas as línguas devido aos condicionadores linguísticos (internos) e/ou extralinguísticos (externos).


REFERÊNCIAS

ALKMIN, Tânia. Sociolinguística. In: MUSSALIM, Fernanda; BENTES, Anna Christina. Introdução à Linguística: domínios e fronteiras – vol. 1. São Paulo: Editora Cortez, 2021.

BAGNO, Marcos. Nada na língua é por acaso: por uma pedagogia da variação linguística. São Paulo: Parábola, 2012.

COAN, Márluce; FREITAG, Raquel. Sociolinguística Variacionista: pressupostos teórico-metodológicos e propostas de ensino. In: Domínios de Lingu@gem, vol. 4, nº 2 – 2º semestre, 2010.

COELHO, Izete Lehmkuhl et al. Para conhecer sociolinguística. São Paulo: Editora Contexto, 2023.

FREITAG, Raquel. Sociolinguística no/do Brasil. In: Cadernos de Estudos Linguísticos, v. 58, nº 3, Campinas, SP, p. 445-460, 2016.

FIORIN, José Luiz. Introdução à Linguística – vol. 1: objetos teóricos. São Paulo: Editora Contexto, 2021.

LABOV, William. (1972). Padrões Sociolinguísticos. Tradução de Marcos Bagno; Maria Marta Scherre; Caroline Cardoso. São Paulo: Parábola Editorial, 2008.

MOLLICA, Maria Cecília; BRAGA, Maria Luiza. Introdução à Sociolingüística: o tratamento da variação. 3ª ed. Contexto, 2007.

MONTEIRO, José Lemos. Para Compreender Labov. São Paulo: Editora Vozes, 2008.

REBOUÇAS, Ângela; COSTA, Ivandilson. Sociolinguística Variacionista: fundamentos, pesquisa, pontos críticos. In: Interletras, vol. 3, ed. 19, 2014.

SAUSSURE, Fernand de. Curso de Linguística Geral. Tradução Antônio Chelini, José Paulo Paes, Isidoro Blikstein. 28.ed. São Paulo: Cultrix, 2012.

TARALLO, Fernando. A Pesquisa Sociolinguística. 8°. ed. São Paulo: Atica, 2007.


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